“Eu critico a tudo e a todos, vou em manifestações e grito palavras de ordem, generalizo chamando todos os políticos de ladrão, quebro tudo o que vejo pela frente. Mas o meu carro está rodando legalmente pelas ruas sem ser importunado, mesmo com o pneu careca e o IPVA atrasado.” – Anônimo

 

Conversas telefônicas, autorizadas pela Justiça, flagram supostos membros da quadrilha especializada em fraude em documentação de veículos no Detran invejando o padrão de vida do então chefe do posto de Vistoria de Santa Cruz, Cláudio Henrique Lopes. Apontado pelo MP como peça importante no esquema de fraude, ele tem casa com monitoramento constante de câmeras, dois carros, motocicleta, lancha, um depósito de gelo, um imóvel comercial em Bangu avaliado em torno de R$ 500 mil.

Em um dos trechos, os integrantes da quadrilha discutem se é preciso o veículo estar presente durante a vistoria e também o valor do serviço. ” Ele tem que que fazer a vistoria do carro, confere? É, fazer a vistoria. Exatamente. Só que o carro não vai estar presente.  Ah, o carro não vai estar? É… Tem jeito? Tem.  Só que um serviço desse hoje custa 350 reais”.

Em outro trecho da conversa telefônica Nóbrega fala sobre como emitir as placas falsas. “Você me passa as placas que eu vou ver quais são as que estão em exigência, eu vou mandar emitir. E eu vou emitir pra você e vai pagar ele lá e faz o acerto por fora comigo. Já tá fechado”.

Batizado de ‘fantasma’ e ‘pipoca’, o maior esquema de fraude em documentação de veículos no Detran, que rendia à quadrilha R$ 2 milhões por mês, foi desmontado ontem. Em seis meses de investigação, 700 carros foram identificados e 181 pessoas — 136 eram ou são funcionários —, além de três PMs e zangões, denunciados à Justiça. Onze donos de veículos vão reponder por crime de corrupção ativa (a pena varia de 2 a 12 anos de prisão).

As escutas também mostram que um dos envolvidos no esquema discute os valores e os riscos da fraude. “Pra ganhar dinheiro, primeiro de tudo, não tem que ter medo. Se você tiver medo, você vai ficar comendo o  que vem na tua boca e o que vem na tua boca é pouquinho: É R$ 10, é R$ 20, é R$ 30. Agora, se você se contenta com isso aí. Aí a questão é sua”.

Segundo o corregedor do órgão, muitos funcionários presos não tinham praticado outros crimes anteriormente. “A maioria dos funcionários não conhecia a seara criminal, eram réus primários e agora podem pegar até 20 anos de prisão”, comentou.