Parece brincadeira mas a PM do Rio de Janeiro não se apluma, sumiram com o Amarildo e agora querem sumir com alguns jovens do Andaraí.

 

Policial lotado no Andaraí relata que colegas de farda estariam ameaçando jovens inocentes no local. Moradores contam casos de ameaças e abusos de autoridade

 

Moradores do Morro do Andaraí resolveram se juntar para denunciar supostos abusos que estariam sendo cometidos por policiais da UPP local. De acordo com o presidente da Associação dos Moradores daquela comunidade, Jorge Bidu, de 37 anos, a coragem para relatar as ameaças surgiu após O DIA publicar, na sexta-feira, que PMs da UPP do São Carlos estariam aterrorizando moradores e comerciantes — um sargento chegou a ser afastado das funções. Nesta terça-feira, um policial lotado no Andaraí confirmou à reportagem que existe ‘lista de pessoas marcadas para morrer na favela.

“Estou alertando a garotada de que existem pessoas marcadas para morrer. Eles ameaçam os moradores dizendo sobre a existência desta lista, e os moradores podem confirmar, não é novidade. Mas, como sei que são garotos da comunidade, eu mesmo pedi para que eles não saíssem tarde de casa, para ninguém forjar nada contra os meninos”, disse o PM, que pediu anonimato.

Jorge Bidu foi além: “Cansamos de ficar calados. A UPP é muito bem-vinda no Andaraí. Somos a favor e confesso que estamos vivendo melhor com ela. Mas tem um grupo de policiais que precisa sair, pois eles estão ameaçando e batendo nos moradores”, denunciou.

Uma mãe, que diz ter visto o filho de 15 anos ser agredido pelos policiais, denuncia que esse grupo de PMs destruiu câmeras de segurança no morro: “Após baterem no meu filho, eu perguntei por que as câmeras foram retiradas. Eles disseram que tiraram para ninguém ver quando jogarem um no valão. Depois, me deram um tapa na cara”, disse a mulher.

O DIA constatou as câmeras quebradas. Algumas, que ficavam localizadas próximo à base da UPP, foram completamente arrancadas do local, restando apenas a fiação arrebentada. Em nota, o comandante da UPP do Andaraí, capitão Victor de Souza, diz que recebeu as denúncias dos moradores no último dia 20 e imediatamente instaurou procedimento apuratório, que está em andamento. O comando da UPP Andaraí ressaltou que não possui câmeras de segurança e que os equipamentos pertencem a comércios e não são usados para monitoramento.

Jovem diz que foi obrigado a comer fezes de cachorro

Ao lado da mãe que denunciou os PMs, um menino de 15 anos relatou como foram as agressões e humilhações sofridas: “Estava soltando pipa, e eles falaram que o local certo de soltá-la era no alto do morro, que ventava mais. No meio do caminho disseram que eu ia morrer, pois eu estava com drogas. Então, tirei um sanduíche do bolso,que minha mãe tinha feito, e disse que só tinha aquilo. Eles abriram o sanduíche, colocaram cocaína, maconha e cocô de cachorro e me obrigaram a comer”, contou, para depois concluir: “A minha sorte foi que os moradores avisaram para minha mãe, que chegou gritando no alto do morro”.

O grupo de moradores, com um caderno de anotações, deu nomes aos PMs acusados: ‘Sargento Ferreira’, ‘Maia’, ‘Cristiano’, ‘Saião’ e ‘Navarro’. Um jovem relata que, sábado, ‘Ferreira’ teria perguntado aos meninos quando eles iam arrumar armas para brincar de ‘polícia e ladrão’. “Ele disse que sabia que éramos vagabundos e que só esperava a gente arrumar armas porque matar desarmado não teria graça”.

Oficial é acusado de furto

Outro morador relata que teve os documentos furtados por um dos oficiais, que ainda o teria obrigado a quebrar o próprio celular. “Ele me revistou e pegou minha carteira de trabalho e a identidade. Logo depois começou a mexer no meu celular e colocou um funk para tocar que estava na memória. Ele disse que funk era coisa de bandido e ordenou que eu quebrasse o celular”.

Jorge Bidu, presidente da associação, reafirma que as agressões e ameaças representam atitudes de grupo isolado de policiais.

“Precisamos que eles sejam substituídos por policiais que realmente estejam comprometidos em pacificar a região, como é o caso de muitos aqui. É um trabalho de longo prazo, que eles não entendem. Tem gente que olha a polícia como uma oportunidade de estar segura. Então, isso é inaceitável”.