‘Salários’ em forma de prestações de carro. É assim que PMs que prestam segurança para os ‘capos’ do jogo do bicho têm recebido dos contraventores pelos serviços executados. Três carnês em nomes de PMs com parcelas entre R$ 800 e R$ 1 mil apreendidos pela polícia indicam que o novo esquema vem sendo adotado pelo grupo para não deixar provas da ligação entre PMs e bicheiros.

O esquema foi revelado ontem, durante a Operação Dedo de Deus 2, que investiga o jogo do bicho. A oito dias do Carnaval, agentes da Polícia Civil cumpriram vários mandados de busca e apreensão, entre eles na Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), onde passaram cerca de oito horas apreendendo documentos, computadores e pen-drives. A operação é desdobramento da Dedo de Deus 1, de dezembro de 2011.

O novo esquema de pagamento a PMs foi descoberto ainda na primeira fase. Os carnês têm prestações que variam de 48 a 60 meses. “É a primeira vez que vemos isso. É uma forma nova adotada pela cúpula do bicho para pagar a pessoas que fazem segurança. Cheque deixa lastro, dinheiro também. O carro se incorpora ao patrimônio de forma diluída”, explicou o delegado da corregedoria da Polícia Civil, Glaudiston Galeano. Os nomes dos três policiais e de outro PM envolvidos não foram revelados.

Galeano afirmou que não tem provas de que a Liesa tenha ligação com o bicho, mas disse que na entidade poderá encontrar provas contra os alvos da operação. “A Liesa já teve em seus quadros pessoas condenadas por contravenção. Os ‘capos’ têm como tradição serem patronos de escolas de samba, e elas se submetem à Liesa”, justificou.

Computador ‘parrudo’ foi apreendido

A Dedo de Deus 2 apontou ainda 30 novas pessoas envolvidas no jogo do bicho, entre elas os quatro PMs. Segundo Galeano, a Polícia Civil pediu a prisão de todos, mas a Justiça alegou que as provas eram insuficientes e expediu apenas os mandados de busca e apreensão cumpridos ontem.

Além da Liesa, os policiais foram a dois endereços — Tijuca e Niterói — de Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, que já foi presidente da Liesa. Em Niterói, foi apreendida uma CPU. Ele não foi encontrado. “É uma CPU enorme. O tamanho nos chamou a atenção porque não é comum esse tipo de equipamento em residência”, explicou o delegado. Capitão Guimarães responde ao processo em liberdade.

Polícia aposta em mais provas

As buscas se estenderam à mansão de Adilson Coutinho de Oliveira, na Barra, onde foram apreendidos R$ 13.800 em notas e R$ 360 mil em cheques. No mesmo local, em 2011, a polícia apreendera R$ 3,9 milhões em dinheiro.

Em escritórios de apostas no Centro, Nilópolis, Meriti e Mesquita, a polícia apreendeu talões. “Os materiais apreendidos podem produzir provas contra os novos alvos”, disse a corregedora da Polícia Civil, Márcia Pitta.