O homem que aparece no vídeo sentado diante do traficante Nem e segurando fuzil, de acordo com a polícia, era lotado na Secretaria Estadual da Casa Civil desde o dia 6 de setembro. Alexandre Leopoldino Pereira da Silva não exercia simplesmente a função de auxiliar de manutenção, uma espécie de zelador. No dia 27 de outubro, ele foi nomeado pela Diretoria Geral de Administração e Finança da pasta para integrar duas comissões permanentes de fiscalização de contratos. Na noite desta sexta-feira, ele se entregou à polícia.

Foto: Reprodução

Na comissão, o zelador tinha o poder de ratificar os serviços operacionais prestados na Casa Civil. Com um salário de R$ 2 mil (R$ 1.780 líquidos), Alexandre, o Perninha, que mora na Rocinha, vai responder por associação para o tráfico de armas.

Ele chegou ao cargo na Superintendência de Engenharia e Manutenção (Supem) da Casa Civil após ser indicado pelo ex-cunhado Ronald de Jesus Cardoso, supervisor de manutenção, que foi contratado no dia 26 de outubro do ano passado.

O governo do estado do Rio de Janeiro informou que os dois foram exonerados nesta sexta-feira e que a publicação sai no Diário Oficial de segunda-feira.

Dois líderes comunitários filmados

Vídeo amador que, segundo a Polícia Civil, foi feito em setembro, na Rocinha, mostrou a ligação de líderes comunitários com o tráfico na favela e levou dois deles à prisão, nesta-sexta. Na gravação, que dura 18 minutos, William de Oliveira, 40 anos, e Alexandre Leopoldino Pereira da Silva, o Perninha, aparecem nas imagens negociando, segundo a polícia, um fuzil com o então chefe do tráfico Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, 35, na localidade Cachopa. William foi capturado em casa, pela manhã. Perninha se entregou à noite. Nem está preso desde novembro.

Dos becos e vielas da Rocinha, onde atuaram como representantes de moradores, William e Perninha chegaram aos poderes Executivo estadual e Legislativo municipal. Enquanto William era lotado no gabinete da vereadora Andrea Gouvêa Vieira (PSDB), Perninha estava a serviço da Secretaria da Casa Civil do Governo do Estado.

Foto: Alessandro Costa / Agência O Dia 

Titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), Márcio Mendonça explicou que recebeu de moradora da favela o DVD. Os mandados de prisão temporária de cinco dias foram expedidos pela 38ª Vara Criminal do Rio por associação para fins de tráfico. “Eles responderão por associação ao tráfico e venda de arma”, disse Mendonça.

Enquanto o delegado afirma que o fuzil era um AK-47, o especialista em armas Vinicius Cavalcante garante ser um AK-74, semelhante ao usado pelo terrorista Osama Bin Laden, morto em maio. Outro especialista confirma a informação.

William alegou que o dinheiro que aparece recebendo era doação de campanha: “Foi armadilha. O Nem me chamou na véspera da eleição (de 2010), quando fui candidato a deputado estadual. Aceitei o dinheiro, mas, quando desci o morro, devolvi”, alegou. Ele disse ter sido ameaçado por Nem.

Vereadora exonera William, mas diz que é amiga dele

A vereadora Andrea Gouvêa Vieira se disse surpresa com a acusação contra William e o exonerou à tarde. “Não contrato nem gente com dívida no SPC ou Serasa”, afirmou ela, que foi intimada a depor segunda-feira. A vereadora garantiu desconhecer atividades ilegais do ex-assessor, cuja remuneração era de R$ 4 mil.

Foto: Paulo Araújo / Agência O Dia 

Ela criticou a justificativa do acusado, de que o dinheiro recebido financiaria sua campanha ao cargo de deputado estadual. “Vai ser a maior traição da minha vida política. Ele era mais que funcionário. Era meu amigo e da minha família”.

O relacionamento dela com William começou quando ele era líder comunitário na década passada. A atuação dele aumentou quando Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-te-vi, chefiou o tráfico na favela. Em 2004, a polícia apresentou interceptações telefônicas em que William daria orientações ao bandido para sumir com três fuzis desviados do Forte de Copacabana. Após nove meses na prisão, foi absolvido.

William perdeu duas eleições, tendo sido o mais votado na comunidade em 2010. No total, teve 49,9 mil votos. Dois anos antes, não consegui se eleger vereador.

Por sua vez, Luiz Cláudio de Oliveira, o Claudinho da Academia, outro líder comunitário da Rocinha, foi eleito vereador em 2008. Chegou a ser denunciado pelo Ministério Público por coagir eleitores, através de ameaças, durante a campanha. Sempre negou. Claudinho foi encontrado morto em janeiro de 2010 na casa de um sócio, vítima de enfarte.