– Dá pra apagar essa luz insuportável? Fuck! Tá cedo demais pra mim… alguém
aí pelo menos tem um isqueiro pra me emprestar? Ou um cigarro, porque, pra
variar, acho que perdi meu maço de novo… Cara, que lugar é esse? Aliás, como
deixei que me trouxessem para um pub tão caído assim? Se isso aqui é um bar,
acho que prefiro a sala de convivência do rehab. Garçom?!

– Baby, nem adianta chamar, aqui não tem garçom.

– Então me diz como faço pra conseguir um whisky?

– Whisky?! Hahahahaha… não, nada de whisky por aqui também. Permita que eu me
apresente: prazer, eu sou o Jimi…

– Oi Jimi, eu sou a Amy. Encantada em conhecê-lo, mas uma pena que já estou
de saída. Você tem ideia de como chego ao ponto de táxi mais próximo?

– Amy, por que você não se senta e procura relaxar um pouco?

– Obrigado, mas eu realmente preciso ir, antes que a porta desse botequim de
asilo esteja repleta daqueles malditos papparazzi.

– Garanto que aqui você não vai precisar se preocupar com isso, certo Janis?
Aliás, Amy, essa é uma pessoa que você precisa muito conhecer. Vem aqui,
Janis…

– Olá Amy, prazer, Janis! Tenho que confessar que faz um bom tempo que eu
queria conversar com você, portanto espero que não se importe se eu fizer uma
pergunta.

– Manda.

– E o seu próximo disco? Quero dizer, ele estava pronto, né?

– Sim, estava, mas a gravadora resolveu adiar o lançamento para depois dessa
minha última internação. Sabe como é, estratégia de marketing e tal…

– Uau, um disco finalizado, Jimi, acredita?! Aposto que os executivos devem
estar agora mesmo fazendo conta dos milhões adicionais que poderão ganhar com
isso tudo. Sem falar que o lançamento desse disco corre sério risco de se
transformar numa enorme palhaçada.

– Nem me fale. Pior do que isso é imaginar quantos babacas nesse exato
momento estão se gabando por aí, “não te disse?! Não te disse?!”. No fundo tenho
pena desses pobres hipócritas que se consideram guardiões da moral. Afinal, por
que eles não cuidam das próprias vidas? Coitados, provavelmente vão morrer sem
saber o que é uma festa de verdade…

– Jimi, do que é mesmo que a gente está falando? Definitivamente acho que
preciso de um drink… mas e aqueles caras ali? Não sou grande fisionomista, mas
eles me parecem, sei lá, familiares…

– Claro. Aqueles são Jim e Kurt, mas eu duvido que eles venham aqui falar com
a gente nesse momento. Devem estar tendo uma daquelas conversas intermináveis.
Em breve vocês se conhecerão melhor.

– Bom, já que não consegui um cigarro nem uma dose de whisky, e por enquanto
não tenho como sair daqui, o que vocês sugerem para quebrar esse tédio
insuportável?

– Janis, chama os caras lá. Vou pegar a guitarra, acho que tive uma grande
ideia…

*Escrito por Bruno Medina é músico da banda Los Hermanos e escritor nas horas vagas